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Tuca Vieira - Fotografia de rua

Posted by Henrique Frazão on 06:37 in
Tuca Vieira
Fotografia de rua
Fonte: http://www.tucavieira.com.br/





















Cidades são lugares que não existem. Uma cidade é a proposição efêmera de um território fragmentado pela acumulação desigual de tempos. Perceber o todo desse espaço é uma impossibilidade. Ao reunir os fragmentos que formam a urbe, seja na memória, seja na imagem, múltiplas cidades até então invisíveis tomam forma. Andar à deriva numa metrópole significa reconstruí-la, dotá-la de novos significados. A cada novo trajeto uma nova cidade se desenha. Cidade e homem são dois vetores em movimento contínuo constituídos de histórias do passado num presente fugaz em direção à inevitabili- dade e à fatalidade do futuro. Mutante no tempo e no espaço, a cidade desafia quem tenta apreendê-la e entendê-la como um corpo único. Toda cidade é composta em parte pela sua concretude e parte pelo imaginário que desperta em cada habitante. Logo, as cidades só podem existir enquanto narrativa. Pautada necessariamente pela subjetividade, a narrativa é a negação da existência de uma cidade única. Cada pessoa, portanto, é uma cidade fechada em si. Quanto mais o fotógrafo encapsula a cidade, conge- lando no tempo monumentos e movimentos, mais ele está revelando sua própria arquitetura interior. O fotógrafo andarilho percorre a cidade, esse entreposto de desejos, ânsias, amores furtivos, memórias indeléveis e fluxos interrompidos na vã tentativa de harmonizar a golpes de luz e sombra o caos que o espreita a cada esquina dobrada. Os labirintos da cidade são uma metáfora dos desencontros do próprio fotógrafo que, na precisão de seu caminho errático, busca obsessivamente a compreensão e a expansão de si entre calçadas remendadas e sombras que prenunciam a noite matizada de luzes artificiais. Tuca Vieira é um primoroso fotógrafo andarilho em busca de uma cidade imaginária. Os jogos de sombras, ângulos e geometrias abstraídas no preto-e-branco se harmonizam em seu visor causando um desloca- mento de percepção. Ao fim de tudo resta uma cidade particular, quase totalmente descolada da cidade que lhe serviu de ponto de partida. Fotografia de Rua é um dos avessos possíveis da cidade de São Paulo. Insólito, misterioso, permeado por uma atmosfera lúgubre que denota a solidão do andarilho, este ensaio mescla influências da tradição da fotografia de rua francesa, com a estética sedutora dos filmes noir sem, no entanto, abrir mão de questões contemporâneas que falam da relação do homem com a paisagem urbana. Um golpe de vista. Um golpe de mestre. 

Eder Chiodett
(texto de parede da exposição no Centro Mariantonia

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